O triste adeus de Mel Galley
Por Marcelo Tuvuca Freire



Mel Galley é um guitarrista britânico, nascido em Canock, na Inglaterra, em 8 de março de 1948. Ou seja, está próximo de completar 60 anos. Ficou famoso por tocar algum tempo com o Whitesnake, mas se destacou mesmo em sua banda anterior, o power trio Trapeze, ao lado de Glenn Hughes (baixista, que foi do Trapeze para o Deep Purple) e Dave Holland (baterista, que foi do Trapeze para o Judas Priest).

Infelizmente, esse aniversário do guitarrista pode não acontecer. No começo deste mês, Galley revelou que está com câncer terminal e tem poucos meses de vida. Além disto, escreveu uma carta de despedida aos seus fãs. Reproduzo a nota abaixo, traduzida pela Rock Brigade.

"Os médicos já diagnosticaram minha condição como 'terminal', porém, em vez de ficar sentado me lamentando, quero usar da melhor maneira possível o tempo que me resta com minha família e meus amigos. Fui abençoado com uma esposa fantástica e dois filhos de quem me orgulho muito, por isso, no momento, meu grande objetivo é conseguir celebrar meu aniversário de 60 anos em março. Eu tive uma vida muito boa, viajei o mundo inteiro, tive experiências maravilhosas, encontrei todo tipo de gente e toquei com os melhores músicos. Quando comecei, nos anos 60, jamais imaginei que poderia chegar tão longe. Não esquecerei experiências como tocar para 100 mil pessoas em Dallas (Texas) no mesmo festival com Rolling Stones, The Eagles e Montrose, em 1975. Também foi inesquecível o Monsters Of Rock (Inglaterra) de 1983, quando eu estava no Whitesnake. São tantos tesouros em minha vida que seria impossível lembrar de todos."

"Depois que minha doença foi divulgada, recebi mensagens do mundo inteiro, inclusive de amigos com quem eu não falava há muitos anos. Eu honestamente não imaginava que tantas pessoas ainda se lembravam de meu trabalho e apenas sinto não poder tocar todos os shows que eu havia planejado para este ano", diz ele, para finalizar: "Agradeço a todos pelo apoio ao longo de tantos anos. Vocês são a música, eu apenas estava numa banda".

Essa frase final de Galley é uma referência a uma das músicas mais famosas do Trapeze, de nome "You Are the Music, We`re Just the Band", também o título do terceiro álbum do grupo.

Na verdade, o Trapeze começou com cinco integrantes. A viagem do primeiro disco (de 1970), ainda um pouco na veia pop/psicodélica dos anos 1960, pode não ter sido a melhor das estréias. Mas, quando a banda se estabeleceu apenas com Galley, Hughes (também vocalista, além de baixista) e Holland, as coisas começaram a funcionar.



Muito influenciado pelo funk, o trio gravou dois clássicos: Medusa (1970) e o já mencionado You Are the Music, We`re Just the Band. Basicamente, são dois discos pesadões de funk rock, com ótimas baladas e uma pegada soul no vocal de Hughes, o que ele também carregaria consigo para o Deep Purple (para desespero de Ritchie Blackmore).

Como registro, deixo as músicas "Your Love is Alright", "Touch my Life", "Seafull", "Black Cloud", "Way Back to the Bone", "Coast to Coast" e a própria "You Are the Music" para se conhecer um pouco mais sobre essa banda. Vale a pena ouvir. Para mim, o Trapeze lembra um pouco aqueles bons times de futebol do interior onde vários jogadores aparecem em um determinado campeonato e aí vem os times grandes e compram os caras. E cada um segue um caminho diferente.

Foi isso que aconteceu com a banda. Primeiro, Hughes zarpou para o Purple, no lugar de Roger Glover, que saiu junto com Ian Gillan. Gravou três discos com os caras, trouxe as influências funk para a banda, mas quando o Purple encerrou as atividades em 1976, por causa das fracas perfomances ao vivo na turnê do ótimo Come Taste the Band (1975), aliadas aos sérios problemas de Hughes e do guitarrista Tommy Bolin com as drogas. Bolin morreu de overdose de heroína em dezembro de 76, oito meses após o fim do Deep Purple, que só voltaria (com a formação clássica e sem Coverdale e Hughes) em 1984.

Nesse meio tempo, o Trapeze continuou batalhando, lançando mais alguns discos com uma nova formação. Depois de se reunir rapidamente com Hughes após o fim do Purple, a banda seguiu sem seu baixista original, gravou mais um álbum (Hold On, 1978) e encerrou as atividades no final da década de 1970, quando Holland seguiu para o Judas. Depois, Galley se juntou ao Whitesnake.

Enquanto Hughes batalhou contra as drogas e cantou com todo mundo, Holland se deu bem no Judas, apesar de sofrer algumas críticas devido ao jeito "durão" de tocar. Depois de sair do Priest para dar lugar ao "metal" Scott Travis, Holland se reuniu por algum tempo com Hughes e Galley, em 1991, e depois acabou ficando famoso por ter sido preso há uns três anos, acusado de abusar sexualmente de um aluno de bateria de 17 anos.



Quanto a Galley, que motivou esse post, ele entrou no Whitesnake por volta de 1982, no lugar do guitarrista Bernie Marsden, fazendo dupla com o outro guitarrisa, Mick Moody. Essa ainda era a fase mais blues do grupo de David Coverdale, mas que já caminhava em direção ao hard rock "poser". Galley gravou um pedaço de Saints and Sinners (1982) e outro pedaço de Slide It In (1984). Digo "pedaço" porque ambos os álbuns foram produzidos em um momento de mudança de formação do Whitesnake, não ficando muito claro o que foi gravado por quem. De qualquer maneira, Galley escreveu diversas músicas de Slide It In em parceria com Coverdale, como a clássica "Love Ain`t No Stranger".

A saída de Galley da banda foi, no mínimo, estranha. De acordo com a biografia do Whitesnake escrita por Vitão Bonesso, na seção "Background" da edição número 22 da revista Roadie Crew (julho/agosto 2000), Galley brincava com carrinhos de supermercado com John Sykes (que tinha entrado no Whitesnake na vaga de Mick Moody) em um dia de folga da banda, depois de tomarem umas e outras, no início de 1984. Sykes acabou passando com um carrinho por cima da mão esquerda de Galley, que teve todos os seus tendões rompidos. Ele acabou não retornando mais à banda, até porque já havia brigado com Coverdale por causa da versão norte-americana de Slide It In, onde muitos de seus trechos de guitarra desapareceram devido a problemas com produtores e remixagens. Acabou perdendo a histórica apresentação da banda no Rock in Rio, em janeiro de 1985.

De qualquer maneira, Galley tocou no festival Monsters of Rock de 1983, onde o Whitesnake foi o headliner. Foi o show mais famoso que o guitarrista fez enquanto esteve na banda, até citado pelo mesmo em sua carta de despedida. Carta essa que é emocionante, encorajadora e, ao mesmo tempo, triste. Mas como ele mesmo disse, o cara fez de tudo na vida. Depois de tanto Rock 'n' Roll, que Mel Galley descanse em muita paz.



Boas bandas que você (talvez) nunca ouviu falar...
Vou deixar a música falar por si. Esta banda se chama Trapeze, cujos integrantes são nada menos que Glenn Hughes, Mel Galley e David Holland.



Isso é um aquecimento para o próximo texto, feito pelo Marcelo Tuvuca, sobre o Mel Galley e sua comovente reta final de vida.
Atlantic Records: seis décadas de um sonho



Por Rodrigo Mattar

Pra começo de conversa, eu sempre fui curioso para saber da história de selos e gravadoras musicais. Um deles chamou a atenção pela diversidade em seis décadas de existência: do jazz ao rock and roll, do blues ao rap: a Atlantic Records.

A companhia veio ao mundo pouco depois do fim da II Grande Guerra. O ano era 1947 e Herb Abramson juntou-se ao turco radicado nos EUA, Ahmet Ertegun, para criar o selo que de saída lançou diversos artistas do jazz e do rhythm and blues. O sucesso imediato foi alavancado pelas contratações de Ray Charles, Aretha Franklin, Booker T. & MG’s e Otis Redding.

Em meados dos anos 50, Nesuhi – o irmão mais velho de Ahmet – entrou na Atlantic para dirigir a divisão de jazz e de uma só tacada, Charles Mingus e John Coltrane assinaram contrato para gravar discos pela companhia – cada vez mais em crescimento.

Tanto que a partir da Atlantic, filhotes nasceram: a ATCO, a Spark e a Lava Records. Jerry Wexler, braço-direito de Nesuhi Ertegun, passou a “pilotar” a Stax Records, selo baseado em Memphis, no Tennessee. A associação teve fim em 1968 – mesmo ano em que a Atlantic foi absorvida pela Warner.

Antes, porém, por indicação de Robert Stigwood, a Atlantic contratou um power-trio formado por Eric Clapton, Ginger Baker e Jack Bruce: o Cream, que ao gravar nos estúdios da companhia o lendário disco “Disraeli Gears”, fizeram mais esporro do que qualquer outro artista ou grupo que passara por ali.

O Cream só seria superado em termos de altura sonora por duas grandes bandas dos anos 70 que brilharam no selo dos irmãos Ertegun: o Led Zeppelin e o AC/DC. Page, Plant e companhia foram contratados da Atlantic até 1973 – período em que lançaram a sensacional seqüência dos quatro primeiros discos da banda e o excelente filme “The Song Remains The Same”, inexplicavelmente batizado no Brasil com o esdrúxulo título de “Rock é Rock Mesmo” – que espantou muita gente dos cinemas.

Os australianos do AC/DC tiveram vida um pouco mais longa, pelo sub-selo ATCO, mostrando que o heavy metal podia perfeitamente conviver com o jazz e o R’n’B de Aretha Franklin. E em meados de 1989, a Atlantic sofreu sua primeira grande perda: Nesuhi Ertegun, que fora designado pela Warner Communications o primeiro presidente do selo WEA – que chegaria ao Brasil nos anos 70 com André Midani, ex-Philips, morreu aos 72 anos de idade. Além de se consagrar como uma lenda da história do disco, Nesuhi teve importantíssimo papel na formação do New York Cosmos – o time de Pelé nos EUA, de propriedade da Warner.

A Atlantic fundiu-se com a MCA em 1995 e oito anos depois, num investimento monstro estimado em US$ 2,6 bilhões, a Time-Warner vendeu a divisão de música da companhia a um grupo de investidores. Mas seus selos tradicionais – Atlantic e Elektra permaneceram – e permanecem mais vivos do que nunca.

Como tudo passa nessa vida, Ahmet Ertegun também foi-se embora aos 83 anos, não sem antes deixar outro legado: a criação do Rock And Roll Hall of Fame em Cleveland, Ohio. A importância do executivo turco para a música pôde ser medida no fim do ano passado, quando o Led Zeppelin, após inúmeras tentativas de reunião, tocou em Londres em benefício da Ahmet Ertegun Foundation.

Com Jason Bonham nas baquetas e três dos membros originais – Robert Plant, Jimmy Page e John Paul Jones, o Zeppelin voou alto como nos velhos tempos. Os irmãos Ertegun hoje fazem parte da história, tal como o grupo britânico. Mas as idéias e os sonhos deles permanecem vivas e pulsantes como um rock and roll muito bem tocado.

Alguns artistas que passaram pela Atlantic Records, de A a Z:

ABBA, AC/DC, Alice Cooper, Aretha Franklin, Bad Company, Bad Religion, Booker T & MG’s, Chic, Cream, Dr. Dre, Genesis, Hootie & The Blowfish, INXS, Iron Butterfly, Julian Lennon, Led Zeppelin, Lynyrd Skynyrd, Manhattan Transfer, Melvins, Modern Jazz Quartet, Otis Redding, Peter Frampton, Peter Gabriel, Ray Charles, Rolling Stones, Skid Row, Snoop Doggy Dogg, Solomon Burke, The Temptations, Testament, Tracy Chapman, 2Pac, Yes.
Irreverência, guitarras e Rock 'n' Roll

Por Marcelo Tuvuca Freire

Meu primeiro post (de muitos) no Rock Tales, grande idéia do amigo Bruno Vicaria que eu abracei desde o início, será uma das minhas maiores e melhores experiências com o Rock 'n' Roll.

Em agosto do ano passado, o Van Halen anunciou que se reuniria com David Lee Roth, seu vocalista original. Seu último show com a banda havia sido na turnê do disco "1984", o clássico que continha Jump, Panama, Hot For Teacher, I'll Wait e outras grandes músicas.

Eu já planejava ir para Toronto em setembro, e quando descobri sobre o show tentei comprar o ingresso pela internet. Tinha conseguido isso com o Rush, que eu também presenciei em terras canadenses, mas não foi possível com o VH. No meu segundo dia em Toronto, fui à bilheteria do Air Canada Centre e consegui comprar. Era um péssimo lugar, ruim de assistir, mas pra ver Eddie e Diamond Dave juntos valia muito a pena.

Fui ao ACC para assistir ao show, bem diferente de como seria aqui. Lá, o público se empaturra de pipocas, hot-dogs e refrigerantes. Não existe confusão em relação a ingressos: você senta onde está marcado. Mas, diferentemente do que aconteceu no show do Rush que eu assisti (no mesmo Air Canada Centre), no VH a galera agitou bastante e cantou as músicas. Nada comparado com o que aconteceria aqui, obviamente. Aliás, eles deveriam voltar para os brasileiros conferirem a nova formação (Eddie, Alex, David e Wolfgang Van Halen, filho de Eddie). Para quem não se lembra, o Van Halen tocou aqui em 1983, no ginásio do Ibirapuera, durante a turnê do disco "Diver Down".

Abaixo, está o review que eu escrevi para a revista Rock Brigade, publicado no mês de dezembro. Nele, estão todos os detalhes do show, inclusive set-list. Essa pequena apresentação foi apenas para ambientar o que foi vivenciado no ACC. O que o show me provou foi a necessidade de David Lee Roth voltar à banda.

Para mim, não interessa que o cara é um grande mala. Nem que ele e Eddie não se suportam. Também não sei quanto tempo essa reunião vai durar. O que importa é que David claramente inspira Eddie a tirar o melhor de sua performance. E esse cara é um dos mais criativos guitarristas da história do Rock.

Outro ponto alto foi o set, baseado apenas nas músicas de David com a banda (1978-84). Eu adoro Sammy Hagar (que ficou no VH entre 1985 e 1996, voltando para uma turnê em 2004), mas acho que o fato de o "Red Rocker" não cantar muitas músicas da época de Roth fez com que Eddie sentisse muita falta de tocar esse material. Afinal, foi essas canções que fizeram a banda estourar no mundo inteiro. Dava pra ver o tesão na cara do guitarrista, empolgadaço, dedilhando a maravilhosa Ì'm the One, do primeiro disco.

O show foi realmente inesquecível, um dos melhores que eu já assisti. A banda esteve (quase) perfeita, e o set foi inacreditável. Mas isso eu deixo para vocês lerem no review.

Um abraço a todos.

ET: as fotos foram capturadas por Eric Hodama, um amigo meu, que ficou em um lugar bem melhor do que o meu.

Van Halen – Air Canada Centre, Toronto
7/10/2007

Review por Marcelo Freire

Quando os irmãos Van Halen anunciaram uma reunião com David Lee Roth, em agosto deste ano, a primeira pergunta que todos fizeram foi: será que desta vez rola mesmo?

Desde que Sammy Hagar saiu da banda, em 1996, uma possível turnê com seu vocalista original sempre foi cogitada. Nesse meio tempo, Gary Cherone, ex-Extreme, entrou e foi demitido do grupo, que depois saiu em turnê com o próprio Hagar durante alguns meses, em 2004, até as brigas entre os integrantes cancelarem os planos da banda. Dessa maneira, a volta (até o momento provisória) de David Lee ao Van Halen não é exatamente uma surpresa.

A surpresa maior ficou por conta do desprezo dos irmãos por Michael Anthony, baixista da banda desde 1974. Em seu lugar, o guitarrista e o baterista trouxeram ninguém menos que o filho de Eddie, Wolfgang Van Halen, de apenas 16 anos. É nesse contexto que o Van Halen sobe ao palco do lotado Air Canada Centre, em Toronto, para dar início ao quarto show desta turnê.

Eddie entra sorridente, pulando e desferindo o riff de You Really Got Me, para delírio do público canadense. David aparece agitando uma bandeira vermelha, no fundo do palco. A performance da banda é empolgante, assim como o abraço entre David Lee e Eddie ao final da canção.

O set-list, logicamente, inclui apenas músicas da fase inicial do grupo norte-americano, até 1984. O show prossegue com I'm the One e Runnin' With the Devil, e Roth prova que ainda está em ótima forma. Mas o destaque mesmo é Eddie Van Halen. Ele pode ser controverso , mas quando está no palco se transforma em um deus da guitarra. Mais importante, parece tocar como se fosse seu último show, no alto de seus 52 anos. O guitarrista transmite para a platéia toda essa energia, distribuindo sorrisos, como estivesse fora dos palcos há duas décadas.

A banda continua despejando seus hits com Romeo Delight (música de abertura da única turnê da banda por terras brasileiras, em 1983), a enérgica Somebody Get me a Doctor (um dos melhores riffs já compostos por Eddie), Beautiful Girls e a 'alegre' Dance the Night Away, muito bem-recebida pela platéia.

Nesse momento, já era possível notar que a química entre Eddie e David está sempre acesa, mesmo que os dois estejam bem longe de ser grandes amigos. Roth completa como ninguém a performance agitada e cheia de energia de Eddie. Apesar disso, o vocalista demonstra uma certa comodidade no palco, se poupando em algumas músicas. Sua performance, na verdade, se assemelha muito àquela do festival Live' n' Louder de 2006, em São Paulo. Mesmo assim, David Lee Roth sabe hipnotizar a platéia e deixá-la em suas mãos durante todo o tempo.

Após a banda tocar Atomic Punk, pérola do primeiro disco, o vocalista mostra suas habilidades sonoras ao imitar o som de uma moto com a sua boca, 'duelando' com Eddie Van Halen em Everybody Wants Some. O grupo segue o set-list –muito bem escolhido e estruturado, por sinal– com So This is Love?, Mean Streets e (Oh) Pretty Woman, levantando o público com um cover que todos conhecem. Ao final da música, é a vez de Alex Van Halen demonstrar suas habilidades, executando um solo de bateria simples e não muito longo, mas de ótimo gosto.

Unchained é a próxima, e David, como de costume, mais grita do que canta tal música, deixando grande parte das letras para pai e filho Van Halen, que fazem os backing vocals. E eles não decepcionam, demonstrando afinação e fidelidade às versões de estúdio. Se compararmos a performance do Van Halen do início da década de 1980 com a desta turnê, nota-se que os backing vocals melhoraram consideravelmente.

A balada I'll Wait tranquiliza um pouco o ambiente antes de And the Cradle Will Rock, talvez a música mais bem executada do show, pesada e muito fiel à versão original. É a vez de Hot for Teacher levantar o público, seguida por Little Dreamer, Little Guitars, Jamie's Crying e Ice Cream Man.

Com o show chegando à sua parte final, é preciso analisar a performance do 'moleque' Wolfgang Van Halen. Primeiro, é claro que Michael Anthony faz muita falta para o grupo. O baixista, sempre em segundo plano, ajudou a criar a imagem e o estilo do Van Halen durante os 30 anos de existência da banda. Com apenas 16 anos, esse é um fado que Wolfgang precisa superar. Ele ainda é inseguro e tímido no palco, sem saber direito onde ficar. Mas não cometeu erros e sempre olhava o pai como exemplo, literalmente, indo atrás de Eddie durante a apresentação.

O guitarrista busca dar moral para o filho, 'duelando' e fazendo brincadeiras com Wolfgang. De qualquer maneira, é muito estranho ver um show do Van Halen sem Michael Anthony no palco. Depois de Ice Cream Man, a banda inicia um de seus maiores clássicos, Panama, que deixa todos em pé antes do solo de Eddie. O guitarrista se joga no chão (sem a agilidade de outros tempos, obviamente), executa trechos de músicas instrumentais (sendo Eruption a mais fácil de reconhecer) e lança um sonoro "we're a fuckin' band now!" antes de Ain't Talkin' 'Bout Love, outro clássico que faz todos no Air Canada Centre cantarem.

Após o vigésimo abraço entre David e Eddie, a banda se despede antes de voltar para o bis. Logo depois, ouve-se a introdução 1984, que esquenta o ambiente para Jump, maior hit da banda em sua história. Confetes caem sob o público e David Lee Roth 'chama' a platéia para cantar com um gigante microfone inflável. O vocalista ainda demonstra suas habilidades no kung-fu, fazendo malabarismos com um mastro durante o solo de teclado de Jump.

Ao final da apresentação, enquanto todos saíam do Air Canada Centre com um sorriso 'colado' no rosto, vêm as perguntas. Até quando essa reunião vai durar? Será que os irmãos Van Halen, famosos pelo temperamento complicado, aguentarão o imprevísivel e inconseqüente David Lee Roth por muito tempo? Existem planos para um novo disco de estúdio? Teria Michael Anthony espaço nessa nova encarnação da banda?

Nada disso pode ser respondido ainda. Mas uma coisa é certa: a equação Eddie Van Halen + David Lee Roth é igual a Van Halen. Roth tem o espírito boêmio, irreverente e festeiro do grupo, e Eddie reconhece isso. Resta saber por quanto tempo a lua-de-mel vai durar.



Em tempo: além de nos presentear com esta belíssima resenha, Tuvuca ainda me trouxe uma camisa da turnê. Não saiu barato, mas eu posso dizer que sou o único por aqui que tenho ela! Valeu, fera!

Vicaria

A loira, o ruivo e a branquinha



Quem disse que os roqueiros nacionais não têm histórias onde as drogas proporcionaram momentos hilários e constrangedores ao mesmo tempo (dependendo do ponto de vista, claro)?

As drogas, principalmente a cocaína, são uma praga, mas neste caso específico, renderam uma história que, hoje em dia, graças à "limpeza interna" deste cidadão, pode ser considerada hilária.

Nando Reis não é apenas conhecido como o cantor de "Marvin" e parceiro eterno de Cássia Eller, mas também por entrar completamente alucinado em um programa de televisão ao vivo.

O show televisivo em questão era o Programa Ana Maria Braga, na Rede Record, em 1997. Antes de ir pra Globo, a loira apresentava um programa semanal toda terça à noite, além do vespertino diário.

Pois bem. Os Titãs estavam no auge, após o lançamento do álbum "Acústico" e suas presenças em programas de auditório eram obrigatórias. E, em um dos intervalos do programa, segundo o livro "A Vida Até Parece Uma Festa", de Hérica Marmo e Luiz André Alzer, Nando deu uma de Tim Maia e foi para o banheiro dar o famoso "tirinho".

De acordo com os autores, foi apenas uma carreira, mas eu duvido. E Nando voltou alucinado ao palco. Quando era a vez do grupo aparecer, Nando resolveu ler uma carta que uma fã mandou para eles via produção do programa.

Resultado? Doidão, Nando emendou uma história na outra e não parou de falar. E, ao tentar contar sobre uma situação que acontecera na Rede Globo, o ruivo tentou evitar citar o nome da concorrente, repetindo a seguinte frase:

"Aconteceu na oooutra emissora... Na oooutra emissora... Na ooooutra...."

Até a loira tirar o microfone de sua mão e continuar o assunto com os outros titãs como se nada tivesse acontecido. E, no dia seguinte, o hoje falecido Marcelo Fromer recebera uma ligação do jogador e amigo Casagrande, que comentou:

"Eu vi vocês ontem na ooooutra emissora!"

É preciso dizer que Nando Reis tomou uma bela comida de rabo da "Liga", comissão organizada pelos próprios titãs para darem broncas em quem cometer erros públicos.
Iron Maiden: uma breve análise do que aguardam os brazucas

Por Maurício Deho

Começou a turnê do Iron Maiden. Por mais que a banda já tenha passado pelo Brasil inúmeras vezes, parece que nunca uma aparição do hoje sexteto inglês em terras tupiniquins será a ser um evento comum, encarado apenas como mais uma turnê. Tudo começou, por sinal, naquele Rock In Rio de que o Bruno falou abaixo, na primeira apresentação deles por aqui e que estará na nova versão do DVD Live After Death (IMPERDÍVEL, não?!).

Melhor para o show, melhor para a banda e melhor para os fãs, que só tem a aproveitar deste clima. Mas a festa em 2008 é algo diferente do normal, pelo menos é o que promete a “Somewhere Back In Time World Tour”. Ela é a continuação da turnê da primeira parte do DVD Early Days, em que os reis do NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal) apresentaram apenas clássicos de seus três primeiros álbuns, tocando canções que não figuravam a tempos em seu set list, como a fantástica “Phantom of The Opera”.

Desta vez, em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, ao invés de assistirem à tradicional turnê promocional do último álbum da Donzela de Ferro (que seria A Matter of Life And Death, mais uma da polêmica nova fase do Iron, do tipo “ame-ou-odeie”), as músicas prometidas são as que englobam os primeiros álbuns, Iron Maiden, Killers e The Number of the Beast, e ainda Piece of Mind, Powerslave, Sowhere in Time e Seventh Son of a Seventh Son. Entendeu? Se não, basicamente pegue o set list do legendário Live After Death e acrescente estes dois últimos. É claro que surgem rumores de que, para a América Latina, seriam incluídas faixas mais recentes, já que o Brasil não foi rota da turnê do CD.

Bom, o fato é que a turnê começou com o show em Mumbai, na Índia, dia 1º de fevereiro, e contou com o seguinte set list:



Intro – Churchill’s Speech/Aces High/2 Minutes To Midnight /Revelations/The Trooper/Wasted Years/Number of the Beast/Run to the Hills/Rime Of The Ancient Mariner /Powerslave/Heaven Can Wait/Can I Play With Madness/Fear of the Dark/Iron Maiden/ Moonchild/The Clairvoyant/Hallowed Be Thy Name

Algo de estranho neste meio? Talvez só “Fear of The Dark”, que não seria abordada nesta turnê, mas, como foi o primeiro show dos ingleses em Mumbai, foi algo perdoável e que deve ter levado os indianos simplesmente à loucura.

Mas, indo mais além, podemos dar uma analisada melhor na escolha do Maiden para este set list, que, além das músicas, trouxe grandes estruturas de palco, prometendo superar tudo o que a banda fez e comparando-se apenas à turnê em que se gravou Live After Death – as gravações do disco foram durante os quatro shows lotados que os ingleses fizeram em Long Beach, nos Estados Unidos. São palavras do guitarrista Dave Murray na Roadie Crew - leiam! Até porque eu escrevo lá! =)

Uma turnê desse tipo é uma chance de única de chutar o balde. Deixar clássicos batidos (tudo bem, clássicos do Iron nunca são batidos...) de lado e apostar naquilo que todos pedem mas que, por coisas do destino, do tipo que se limita pelo “temos que tocar os clássicos, mas temos que promover as novas músicas”, nunca acontece. Olhando o set, não se vê a épica “Alexander The Great”. Uma “22 Acacia Avenue” nem deve ter passado pela mente. Mais à frente, parece que “Caught Somewhre in Time”, “Flight of Icarus” ou, cavocando mais fundo, coisas como “Remember Tomorrow” não apareceram naquela listinha que é sempre toscamente grudada ao chão do palco.

A conclusão é que, mesmo quando Steve Harris e seus companheiros podem sair um pouco daquelas músicas rotineiras, que tocam há quase três décadas, como a faixa-título repetida à EXAUSTÃO, ficam com um pé atrás. Vai saber por qual motivo!? Boas músicas eles têm, bons músicos também e recursos financeiros para mandarem tudo às favas e fazer como querem mais ainda. Comparando às duas últimas passagens no Brasil, quando, em São Paulo tocaram no Pacaembu e, antes, foram ao Rock in Rio, nada mais que oito canções serão repetidas, metade do set indiano.



Mas ídolos são ídolos. Melhor é deixar a bronca de lado. Ninguém vai reclamar de ouvir aqueles clássicos mais uma vez. Ninguém vai deixar de pular em “The Trooper”, muito menos em “Hallowed Be Thy Name”. E até que o bom gosto foi apurado, vai, o problema é que nenhuma das faixas é inédita ao vivo. Mas será de arrepiar ouvir a longa “Rime of the Ancient Mariner” e a abertura com “Aces High”; “Revelation”s será matadora com três guitarras (esta faixa é a em que Bruce Dickinson fez a terceira guitarra no Live After Death!), assim como “Powerslave”. E ainda tenho certeza que a emoção vai tomar conta em “Wasted Years”, com os 40 e tantos mil (pelo menos aqui em São Paulo) pulando até cansar...

Como já disse, ídolos são ídolos, então perdoamos esse excesso de zelo. Vale lembrar que algumas poucas faixas podem mudar de local para local. Mesmo assim, da próxima vez, arrisquem mais um pouquinho!!!

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